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Selecção
do Real Excerto da análise A
relação entre o Sistema Jurídico e os Media Representada pelos Media,
João de Sousa, Setembro de 1997, para a disciplina de Novos Direitos e Comunicação do Mestrado de Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação do ISCTE |
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Selecção do real
Falámos anteriormente em selecção de acontecimentos. Os Media
têm a capacidade de seleccionar mercê de rotinas próprias instituídas.
Kurt Lewin, num estudo de dinâmicas no interior de grupos sociais,
criou o conceito de gatekeeper.
Identificando-se os canais por onde passam determinados fluxos, podem-se
identificar estruturas que promovem selecções, tomam decisões quanto
ao conteúdo desse fluxos, são enfim, os “porteiros” (tradução
grosseira mas bastante metafórica) desse processo. O que K. Lewin
identificou são zonas de filtragem. O conceito tem sido amplamente
aplicado aos Media, sobretudo à produção jornalística. Sabemos que
por cada dez despachos de agência chegados a uma redacção nove não
serão aproveitados. Pensemos na selecção que a agência já promoveu
e naquela que as fontes da agência fizeram antes e calculemos a
quantidade de acontecimentos que foram observados para se produzir um
qualquer formato informativo com dez notícias.
Continuando a pensar na escala de todos os Media, e sabendo que a
maior parte do nosso conhecimento sobre o mundo (política nacional e
internacional, medicina, geografia...) provem dos Media, algo se afigura
óbvio: só conhecemos uma parte ínfima do que acontece, apesar de
termos a sensação contrária, e mais, só conhecemos o que os Media
pretendem que conheçamos. Não se tire daqui uma leitura crítica ou
maquiavélica da actuação dos Media (mais adiante trataremos deste
assunto), por agora pensemos no processo.
Focando agora a nossa atenção dentro de uma redacção de
informação, encontramos também aqui processos de selecção. As
categorias profissionais dos jornalistas apontam para tal, sobretudo no
papel do editor de uma equipa[1]
ou tema (economia, desporto...). Mas dentro da matéria de cada
acontecimento, o jornalista ainda escolhe aquilo que é pertinente ou não.
Poderíamos desde já incorrer no erro de interpretar o gatekeeper
como um indivíduo com determinadas responsabilidades de selecção, o
processo não é tão subjectivo. Este processo passa por um conjunto de
regras próprias da instituição jornalística, enfim, por normas
profissionais[2].
Seria uma atitude precipitada tomar como gatekeeper
um indivíduo, mesmo que pautado por determinados critérios. Devemos
tomar uma visão mais abrangente e arriscar uma definição, mesmo que
provisória, que contemple não a actuação individual na selecção,
mas antes esta regulação, este mecanismo. Um gateekeeper
será uma zona de selecção, uma estrutura[3],
dentro de um determinado sistema, actuando de acordo com as regras deste
e sobre unidades do mesmo.
Fizemos uma aproximação do conceito de gatekeeper
ao modelo luhmaniano, mas resta-nos ainda definir quais são as regras
que pautam esta actuação selectiva. Segundo M. Wolf, a noticiabilidade
é “o conjunto de elementos através dos quais o órgão informativo
controla e gere a quantidade e o tipo de acontecimentos, de entre os
quais há que seleccionar as notícias...” (1994:175). Esta
noticiabilidade é pautada pelos valores-notícia, que são os critérios
de relevância dos acontecimentos a transformar em notícia. Estes critérios
podem apresentar-se como uma lista com itens independentes, mas a sua
aplicação espalha-se ao longo de todo o processo de produção e de
forma combinada: “são as diferentes relações e combinação que se
estabelecem entre valores notícia, que recomendam a escolha de um
facto” (M. Wolf, 1994: 175). Os valores-notícia são tanto critérios
de selecção de acontecimentos ou de elementos para uma notícia, como
linhas-guia para a apresentação da mesma.
No fundo, os valores-notícia são critérios específicos do
desempenho da profissão jornalística. Estes critérios têm que ser
flexíveis à diversidade do objecto das notícias e têm que permitir
uma aplicação rápida, sem grandes margens para dúvidas. A principal
exigência que se coloca é rotinizar a tarefa de selecção, tornando-a
exequível em tempo útil. É claro que a aplicação de tais critérios
exige consenso por parte dos jornalistas, estando esta regulamenta (de
forma geral) pelas organizações socio-profissionais do sector. O rigor
dos valores-notícia não parte de uma teorética abstracta, mas antes
da tipificação de uma prática com objectivos definidos: tornar possível
a repetitividade de procedimentos. Os valores-notícia devem permitir a
selecção quase automática dos acontecimentos, com o mínimo de
intervenção subjectiva, e permitir a defensibilidade dessa selecção a
posteriori.
Contudo, estes procedimentos não são um standart
universal e substantivo. Outras ordens de factores têm peso igualmente
determinante nos valores-notícia.” Os valores notícia derivam de
pressupostos implícitos ou de considerações relativas a: às características
substantivas das notícias, ao seu conteúdo; à disponibilidade do
material e aos critérios relativos ao produto informativo; ao público;
à concorrência” (M. Wolf, 1994:179).
O critério substância das notícias deriva sobretudo do seu
julgamento enquanto actual, interessante, importante. M. Wolf resume o
que a investigação etnometodológica produziu sobre este tema. Importa
então, a notabilidade dos indivíduos envolvidos nos acontecimentos, o
impacto sobre o interesse nacional, a quantidade de pessoas que o
acontecimento envolve e por último, a relevância do acontecimento
quanto a um possível desenvolvimento futuro. Qualquer jornalista aplica
estes critérios gerais a qualquer notícia sem grandes dúvidas. Estes
critérios estão expressos em qualquer código deontológico da profissão
e apelam a uma objectividade factual. Essa objectividade é aliás um
mito regulador da actividade jornalística.
A segunda categoria de valores-notícia aponta para os meios
disponíveis e para o tipo de produto informativo. Cruzando com os critérios
substantivos, qualquer editor ou chefe de redacção tem que ponderar os
meios disponíveis. Não será muito inteligente deslocar a um local uma
equipe de reportagem com meios sofisticados e um helicóptero para
cobrir uma notícia que não possa ser no mínimo muito importante. A
disponibilidade de recursos e o custo destes é pensada em função da
possível importância de um acontecimento, é necessário gerir a actuação
da produção informativa tendo em conta estes factores. Além dos meios
disponíveis é fundamental também o formato do produto informativo. A
relevância de uma notícia na TV ganha-se com a imagem. Uma noticia
substantivamente mais relevante pode ser preterida a favor doutra com
melhores imagens colhidas. Na Rádio coloca-se o mesmo para o som, por
exemplo. A qualidade da história narrada é também um critério,
preferindo-se acontecimentos que possam ser tratados com bom ritmo,
contendo acção, passíveis de serem narrados numa linguagem clara.
A percepção que o jornalista tem do público é também
fundamental. A avaliação do interesse de uma notícia passa pela inferência
do interesse do público. É impensável a Antena 2 abrir um noticiário
com uma notícia da contratação de um jogador de futebol, na mesma
medida em que um jornalista da Rádio Renascença não escolheria para o
mesmo fim uma ópera no S. Carlos. Este critério é rico em tensões
opostas, o dever do jornalista não é satisfazer o público, é
produzir programas informativos. Contudo, estes para existirem têm que
cativar o público. Muitas vezes os jornalistas sabem pouco sobre o seu
público, o que também pode provocar fenómenos de desajustamento da
linguagem utilizada.
Por fim, importam os critérios relativos à concorrência. A
competição entre órgãos de informação leva a fenómenos curiosos.
Por vezes, acontecimentos não muito relevantes surgem em vários órgãos
de comunicação apenas por um motivo: ninguém quer deixar de dar uma
notícia, é perder pontos para a concorrência. Um acontecimento pode
ganhar relevo se for distribuído por todos os órgãos de comunicação,
é caso das conferências de imprensa às vinte horas, que permitem a
transmissão em directo nos telejornais ou o caso das notícias com
embargo até determinada hora.
Resumindo, “ Essas avaliações são necessárias não só na
medida em que prescrevem os ingredientes essências de cada notícia,
mas também porque exprimem e representam os interesses dos principais
participantes na selecção e na produção de notícias (...); os critérios
que assumem maior relevo, assumem-no na medida em que são adequados,
simultaneamente a muitas partes em causa. Assim, as avaliações sobre a
importância representam igualmente as instituições públicas cujas
actividades são normalmente importantes. As considerações acerca do
produto, que têm por finalidade atrair audiência, são também
adequadas à prosperidade da empresa; os critérios de exclusão são úteis
quer para um público com valores diferentes, quer para proteger os
jornalistas das pressões. Na realidade é difícil encontrar critérios
que representem uma única parte.” (P. Gans, 1979: 280-281 in M. Wolf,
1994: 195).
Verificamos que os Media operam um conjunto de selecções sobre
o real. Tomando os Media[4]
na perspectiva de N. Luhmann, podemos entender os critérios de
noticiabilidade atrás indicados como o programa da estrutura gatekeeper. Ao reduzirem complexidade de acordo com este programa
(critérios e suas condições de aplicação) os Media promovem cadeias
de significação, que têm um processo de redução sucessiva, em
“abismo” ( acontecimento - selecção 1 - s2 - s3 -... sn - notícia
). A única coisa que garante a validade da relação entre o
acontecimento e a notícia é esta cadeia de representação
sucessiva regida por um conjunto de procedimentos.(procedentes de
diferentes naturezas), por um programa[5].
Podemos afiançar que o referente da notícia é o acontecimento que lhe
deu origem devido a este programa e só em sentido a ele.
Relembrando que os Media agem sobre a percepção intersubjectiva,
prefigurando-a, quer por aquilo que se designa como “efeitos do
real”, quer pela forma como balizam os quadros da experiência
colectiva, temos que a representação que o homem tem do mundo é um
produto da produção mediática. Podemos afirmar que a actuação dos
Media valoriza a representação em detrimento da realidade. Parece-nos,
contudo, que o que acontece é uma alteração da noção do real. Se
para F. Hegel, “o real era o racional “ (quer isto dizer que perante
a imensa quantidade de informações, de que o passados histórico põe
à nossa disposição, é necessário operar uma selecção baseada em
critérios de “conceito” e “inteligibilidade”) , logo a
racionalidade exige que se faça do real uma selecção, um recorte, uma
amostra. Essa noção é também a que, numa outra perspectiva, a da
pragmática de C. Peirce, apuramos a partir da noção de ground
of representation (ou, “atributo de um objecto na medida em que
este objecto é seleccionado de uma certa maneira e apenas alguns dos
seus atributos são considerados como pertinentes...” (1978-I, 292)
numa tal representação. Numa ou noutra óptica, ambas irremediávelmente
dispares na acepção, tempo e metodologia que perspectivam, o real é
sempre uma representação (decorrendo esta sempre de uma qualquer selecção).”
(L. Carmelo, s/d: 54). [1]
Na Rádio ou na TV existem equipas de jornalistas organizados não só
em torno de temas, mas também de acordo com o horário de trabalho.
Formam então grupos generalistas que trabalham por turnos. Cada um
destes grupos tem um editor, responsável pela matéria que é
produzida. [2]
“As decisões do gatekeeper
são tomadas, menos a partir de uma avaliação individual da
noticiabilidade do que em relação a um conjunto de valores que
incluem critérios, quer profissionais, quer organizativos, tais
como a eficiência, a produção de notícias, a rapidez...” (G.
Robinson, 1981:97 in M. Wolf, 1994: 163). [3]
Esta estrutura reduz quantidade e variedade de informação e logo
complexidade dentro do sistema (Media). É ela também que destingue
o que é ou não unidade do sistema. Em N. Luhmann, qualquer sistema
requer sempre um procedimento de redução de complexidade que
estabelece um modelo de selecção. Esta selecção é feita mercê
de um programa que são as condições sob as quais se determina que
uma unidade faz ou não parte do sistema (aplicação de um valor
positivo ou negativo de um código binário do tipo noticiável / não-noticiável). [4]
“... por mass media entende-se o sistema funcional da sociedade
para cuja formação foi decisiva a invenção de tecnologias de
difusão que dispensam e ampliam a interacção nas comunicações;
engloba todas as instituições da sociedade que se
servem de meios técnicos de reprodução para a difusão da
comunicação.” (N. Luhmann, 1997:1). [5]
Arriscado Nunes verificou algo semelhante num estudo sobre a
representação do cancro. Um protocolo de procedimento de experiência
é o garante da representação num processo de experimentação. Na
sucessiva cadeia de experiências, os cientistas não trabalham com
o material concreto em questão mas antes com representações
sucessivas deste. |
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